UNIDADE II – TÉCNICAS DE CAPTURA DE AVES
Site: | AVA ICMBio-MMA |
Curso: | Curso Básico de Anilhamento de Aves Silvestres | 2024 |
Livro: | UNIDADE II – TÉCNICAS DE CAPTURA DE AVES |
Impresso por: | Usuário visitante |
Data: | sábado, 23 Nov 2024, 05:08 |
1. Começando nossa conversa...
Olá Usuário visitante ,
Considerando que você chegou até aqui, significa que já refletiu bastante sobre a sua proposta de pesquisa. Assim, você deve ter formulado uma pergunta clara e objetiva, sabe qual grupo aves quer estudar e concluiu que usar a captura e o anilhamento será a melhor técnica para responder suas perguntas.
Nessa unidade vamos ver as diferentes técnicas de captura de aves e avaliar a adequação de cada uma delas para atender aos objetivos de pesquisa e responder da melhor forma às perguntas elaboradas. Vamos lá?
2. Capturando sua atenção
Atualmente existem diferentes métodos de captura de aves disponíveis para os ornitólogos em campo, muitos dos quais derivados dos métodos de caça. Lembra que falamos brevemente sobre a importância de sua escolha na unidade 1?
Agora vamos conhecê-los. Yamashita (1996) fez uma boa revisão de vários métodos de captura presentes no Brasil, resgatando importantes conhecimentos indígenas, além das influências europeias.
No próximo tópico serão descritos alguns tipos de técnicas e armadilhas empregados na captura de aves para anilhamento.
Uma sugestão de bibliografia sobre o assunto é o livro “Bird Trapping and Bird Banding” de Hans Bub (1991).
O livro traz detalhes das técnicas com descrições de construção e funcionamento de, diferentes métodos de captura de aves usados em todo o mundo. Você poderá encontrar outras referências. bibliográficas ao final desta Unidade.
As armadilhas são diferentes petrechos que servem para capturar organismos e geralmente se baseiam em princípios simples, desenvolvidos a partir da observação do comportamento das espécies-alvo. Cada método tem seu custo, suas vantagens e certas desvantagens.
Ao escolher um dos métodos, você deve considerar as espécies-alvo, os objetivos da pesquisa e realizar uma avaliação sobre a sua experiência na utilização do método ou o tempo necessário para adquiri-la, empregando o método da forma mais segura para as aves e para si mesmo.
As redes de neblina, ou redes ornitológicas, são utilizadas por caçadores no Japão há mais de trezentos anos, possivelmente tendo sido introduzidas naquele país pelos chineses. O uso das redes de neblina se popularizou a partir do artigo publicado por Austin em 1947, onde descreveu e relatou sua eficiência na captura de aves silvestres.
As redes de neblina são superiores a outros métodos, como você verá em campo: elas são mais práticas e versáteis, eficientes, seguras e permitem a captura de uma grande variedade de espécies, e podem ser utilizadas em diversos ambientes.
Redes ornitológicas instaladas em distintos ambientes.
Fonte: Acervo do CEMAVE.
Representação das redes de neblina com terminologia
O tamanho da malha é tomado esticando-se dois nós diagonais vizinhos e medindo a distância entre eles com régua ou paquímetro, podendo ser encontradas redes com malhas de 20 a 100 mm ou mais.
A escolha do tamanho da malha depende do tamanho das espécies-alvo de captura. Para beija-flores e outras aves pequenas, deve-se utilizar redes com malhas de 24 a 30 mm, enquanto para a maioria dos Passeriformes as redes de 32 a 44 mm são as mais recomendadas. Para aves maiores, recomenda-se o uso de malhas acima de 60 mm. Embora haja variações tanto na altura, que pode ser de 1,0 a 4,0 m, como no comprimento, que vai de 2 a 21 m, as redes mais utilizadas são aquelas de 12 x 2,5 m ou 12 x 3,0 m.
Ilustração de como se realiza a medida da malha da rede
Fonte: dos autores.
Aproveite esse contato inicial com o assunto e assista aos vídeos sobre o uso de redes de neblina para amostragem de aves e do curso CEMAVE;
3. Disposição e montagem das redes
A escolha dos locais de colocação das redes dependerá muito dos objetivos e grupo alvo a ser capturado, mas deverá sempre levar em consideração o bem-estar das aves e a segurança dos anilhadores. Os detalhes da escolha de locais e da disposição das redes de neblina, bem como os procedimentos para a montagem e desmontagem das redes serão apresentados e praticados na etapa prática desse curso.
Aproveite e assista alguns vídeos que mostram a montagem e desmontagem das redes de neblina.
(Duração: 9min35s, idioma: Espanhol);
(Duração: 5min37s, idioma: Inglês).
(Duração: 5min5s, idioma: Inglês).
As redes-bandeira, ou de dossel, nada mais são que as redes de neblina armadas e suspensas próximas ao dossel da vegetação, ou ligeiramente abaixo dele. O emprego desse tipo de rede de neblina necessita uma boa experiência prévia com uso de redes, pois são necessárias adaptações na técnica de armação da rede ornitológica.
Para a colocação das redes nos estratos superiores da vegetação arbórea você deve conhecer bem a área e prepará-la previamente, selecionando as árvores altas com poucos galhos e vegetação que possa enroscar nas redes. Isso irá te demandar um monitoramento constante, o que costuma ser bastante trabalhoso, já que a cada ave capturada o sistema deve ser baixado para a ave ser retirada da rede.
Exemplo de sistemas para colocação de rede-de-neblina em dossel
Fonte: Vechi e Alves (2015).
Ao final desta unidade você encontrará algumas fontes sobre redes de dossel. Para saber mais detalhes e um passo a passo sobre a montagem e o uso de redes de dossel veja em: Von Matter. Guia Ilustrado para Montagem de Rede de Dossel.
O uso de redes dobráveis (ou arremessáveis) é uma técnica que consiste em arremessar as redes sobre o local onde as aves estão. Sua utilização demanda bastante tempo para preparação e organização da estrutura (Bub, 1995). Para sua montagem é necessário a preparação do local e a utilização de uma fonte atrativa para as aves (alimentação ‘ceva’, chama ou playback).
Vários tamanhos de redes podem ser utilizados (2,5 por 3 m até mais de 30 metros de comprimento). Possui uma estruturação simples e seu acionamento é manual por cordas e elásticos, por isso é necessário um abrigo para o anilhador ficar monitorando o momento do acionamento. Podem ser montadas com duas redes sobre o mesmo local, ou somente uma rede e são bem eficientes em ambientes abertos, campestres e com aves que se agregam.
Veja o vídeo com a utilização de redes dobráveis:
(Duração: 4min33s, idioma: Espanhol)
Seguindo o mesmo princípio das redes dobráveis, as redes de lançamento consistem em uma rede de nylon que é disparada sobre um grupo de aves. O lançamento da rede pode ser realizado com canhões, com carga explosiva ou por um sistema de elásticos. De acordo com o modo de lançamento são conhecidas por rede-canhão ou rede-elástico.
Existe uma grande variedade de tamanhos de redes, podendo chegar aos 30 m de comprimento. No caso de acionamento por elásticos, o método fica limitado para redes de pequenas dimensões (até 5 x 3 m), dada a menor impulsão proporcionada pelo elástico, quando comparada com o disparo de canhão (Underhill; Underhill, 1987).
Você deve escolher uma rede cujas dimensões sejam compatíveis com o número de aves que deseja capturar. Quanto maior a rede, maior o número de aves capturadas, em função da maior área coberta. As redes de lançamento são indicadas para aves de médio a grande porte, podendo-se escolher malhas entre 30 e 60 mm.
As redes de lançamento são utilizadas em diversos países, especialmente para captura de aves gregárias que descansam em bandos, como aves limícolas, aquáticas, columbídeos, dentre outras. Para aumentar sua eficiência, as aves podem ser atraídas com uso de ceva, iscas ou chamas (manequins de madeira, borracha ou qualquer outro material).
É um método que possui alto custo (com canhões) e que causa um grande distúrbio nas áreas de agregação das aves devido às explosões dos disparos. Devido aos riscos potenciais do uso de explosivos, que requer treinamento específico e autorizações especiais, tem-se desenvolvido alternativas, como o uso dos elásticos (Bamford et al., 2009).
Detalhes do funcionamento também podem ser encontrados nos capítulos 4 e 16 do Manual de anilhamento de aves silvestres (Sousa; Serafini, 2020).
Para ter uma ideia sobre o funcionamento e operação das redes assista aos vídeos:
(Duração: 2min39s, idioma: Inglês)
(Duração: 7min41s, idioma: Inglês);
4. Operacão das armadilhas e redes ornitológicas
É recomendável operar as armadilhas durante os períodos de maior atividade das aves e mantê-las fechadas em situações desfavoráveis. Veremos adiante que isso pode variar com os tipos de armadilha e espécies-alvo. Tal recomendação é importante para garantir o bem-estar das aves capturadas, além de aumentar a eficiência de captura.
Geralmente as redes ornitológicas são abertas ao nascer do sol, se aproveitando dos momentos de maior atividade das aves. Em ambientes florestais com condições de temperatura amena, as redes podem ficar abertas durante todo o dia. Já em áreas mais abertas, como na Caatinga, por exemplo, você não deve manter as redes abertas nos horários mais quentes, entre 10h e 15h. As redes devem ser fechadas cerca de 30 minutos antes de escurecer, garantindo assim que as aves tenham tempo de se abrigar.
Em condições normais, você deverá revisar as armadilhas e redes ornitológicas com frequência, geralmente a cada 30 minutos. Se as condições climáticas forem favoráveis, como locais sombreados e com clima ameno e quando a taxa de captura estiver baixa, você poderá ampliar o tempo de revisão para intervalos de 45 minutos. Sob condições climáticas desfavoráveis, com muitas capturas ou havendo presença de predadores não se esqueça de revisar a cada 15-20 minutos ou desativá-las temporariamente, se necessário.
Não é recomendável que você use as armadilhas sob condições climáticas adversas, como tempo chuvoso, muito frio ou sol forte, pois nessas circunstâncias aves presas podem vir a óbito por hipotermia ou hipertermia. Situações de ventos fortes também devem ser evitadas, pois podem ocasionar ferimentos nas aves capturadas, especialmente em redes ornitológicas, que podem ficar bastante tensionadas pelo vento.
É sempre bom lembrar que aves presas em armadilhas estão mais vulneráveis a predadores. Você deve estar sempre atento à presença de predadores na área e, se necessário, deve desativar as armadilhas, mudá-las de local ou aumentar a frequência de revisões, como vimos anteriormente.
Aves de rapina, tucanos e gralhas, por exemplo, costumam predar aves capturadas nas redes e, em algumas situações, podem acabar ficando presas também. Alguns mamíferos silvestres como primatas, felinos, canídeos, mustelídeos, procionídeos e marsupiais, além de animais domésticos, especialmente cães e gatos, oferecem ameaças às aves capturadas em redes. Aves capturadas próximo ao solo podem ser predadas por serpentes e insetos, neste caso, especialmente formigas.
Outros animais domésticos como caprinos, ovinos, equinos e bovinos podem danificar seriamente as redes ornitológicas durante suas movimentações. Assim, você deve evitar o uso de redes em locais de passagem desses animais.
E atenção, ao armar as redes na praia, deve-se observar as variações da maré para evitar risco de afogamento das aves quando a maré estiver invadindo a área de uso das redes.
5. Armadilha tipo covo
As armadilhas do tipo covo, podem ser compreendidas como qualquer estrutura de tela com entradas em forma de funil e no seu interior se coloca algum atrativo (e.g. ceva, iscas) para a espécie-alvo. Devido à entrada ser em funil, as aves entram para se alimentar e não conseguem sair. A entrada ainda pode ser na forma de uma portinhola que abre somente para um lado, impedindo as aves de saírem. Cabe a você avaliar bem as entradas, a fim de dimensioná-las de acordo com a espécie que se deseja capturar.
Para um aumento da eficiência a ceva é recomendada, usando palha de arroz ou milho para aquáticas ou carcaças para urubus. Pode-se deixar a armadilha com a lateral aberta nos primeiros dias para as aves se acostumarem com a estrutura. Também pode-se instalar desviadores (para direcionar as aves para a armadilha) e chamas, e.g. modelos de marrecas na água, para aumentar a eficiência da armadilha (Ibama, 1994).
Para a captura de anatídeos e outras espécies aquáticas, a armadilha deve ser instalada em local de água rasa, onde as aves costumam se alimentar. Também é bastante utilizada para a captura de urubus.
Um tipo de armadilha de laço muito utilizada para captura de gaviões e corujas é a armadilha Bal-Chatri (Berger; Mueller 1959), devido a sua praticidade e eficiência. Consiste na utilização de gaiolas de ferro cercadas de laços de nylon com nós corrediços. Dentro delas são colocadas iscas vivas (camundongos, pintinhos, aves exóticas etc.) para atrair o predador. A malha da tela da armadilha deve ser pequena para evitar a fuga da presa e protegê-la das garras e bico do predador. Ao tentar capturar a isca, a ave acaba por prender-se nos laços da gaiola.
Fonte: https://modernfalconry.com/mfe/index.php?route=product/product&product_id=30
O tamanho da armadilha, dos laços e o diâmetro dos fios (0,35 a 0,60 mm) serão proporcionais ao tamanho da ave a ser capturada. As armadilhas de laço menores e mais leves devem ter um peso amarrado a um cordão para funcionar como uma âncora, evitando que o indivíduo capturado arraste ou carregue a armadilha.
Assista o vídeo Capturando gaviões com Bal-Chatri para compreender melhor o funcionamento desse tipo de armadilha.
Em determinadas situações, você perceberá a necessidade da utilização de outros tipos de armadilhas e equipamentos para captura de aves, a exemplo de arapucas, alçapões, puçás, e mesmo a captura manual. Capturas manuais são bastante utilizadas para filhotes no ninho ou aves coloniais que fazem ninhos no solo. Por vezes, técnicas de escalada e utilização de equipamentos específicos para este fim serão necessários e, para isso você deverá ter treinamento específico ou demandar ajuda de profissionais habilitados.
Lembre-se sempre da sua segurança e das aves! Importante ressaltar que você deverá tomar todas as precauções para evitar injúrias aos indivíduos ou mesmo o pisoteio e destruição de ninhos, seja em colônias ou isolados, bem como realizar o manuseio e anilhamento dos filhotes no menor tempo possível.
Mais detalhes e informações sobre técnicas de captura de aves estão disponíveis em Bub (1995), Roos (2010) e Sousa e Serafini (2020).
Aprendemos nesta unidade sobre diferentes métodos e instrumentos para captura de aves silvestres para estudos científicos.
- Interaja no Fórum de Discussões desta unidade.
- Não guarde suas dúvidas. Se tiver alguma, participe do Fórum de Dúvidas.
AUSTIN, O. L. Mist netting for birds in Japan. General Headquarters Far. East Command, Natural Resources Section, Report n. 88. 1947.
BAMFORD, A. J. et al. Development of Non-Explosive-Based Methods for Mass Capture of Vultures. African Journal of Wildlife Research, v. 39, n. 2, p. 202-208, 2009.
BERGER, D. D.; MUELLER, H. C. The Bal-Chatri: a trap for birds of prey. Bird Banding, v. 30, p. 18-26, 1959.
BUB, H. Bird trapping and bird banding: a handbook for trapping methods all over the world. Cornell University Press, 1995.
INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS (Ibama). Manual de Anilhamento de Aves Silvestres. 2ª ed. Brasília: Ibama, 1994. 146p.
ROOS, A. L. Capturando Aves. In: Ornitologia e Conservação: Ciência Aplicada, Técnicas de Pesquisa e Levantamento. 1. ed. Rio de Janeiro: Technical Books Editora, 2010. p. 79–104. Disponível em: https://books.google.com.br/books/about/Ornitologia_e_Conserva%C3%A7%C3%A3o.html?id=943ai6ePVzoC&redir_esc=y. Acesso em: 22 abr. 2024.
SOUSA, A. E. B. A. de.; SERAFINI, P. P (org.). Manual de Anilhamento de Aves Silvestres. 3ª ed. Brasília: ICMBio/CEMAVE, 2020. E-book. Disponível em: https://www.gov.br/icmbio/pt-br/assuntos/centros-de-pesquisa/cemave/arquivos/manual_de_anilhamento_de_aves_silvestres-3a-ed-1.pdf Acesso em: 23 abr. 2024.
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YAMASHITA, C. Técnicas de Captura para Marcações Qualitativas. Anais II do Encontro Nacional de Anilhadores de Aves. Anais...Rio de Janeiro: 1986. Disponível em: https://repositorio.icmbio.gov.br/bitstream/cecav/1886/1/artigo_II_enav_76-97_-_1986.pdf . Acesso em: 22 abr. 2024.